Matéria do Jornal Gazeta do Povo: A magia das lutas era maior no fliperama

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Provavelmente ninguém jogou em 1987. Mas quando a segunda versão do jogo de luta chegou às lojas, em 1991, virou febre mundial. E não importava mais qual console você tivesse em casa. Street Fighter II foi lançado para todos os videogames.

Era um marco nos jogos de luta com a inauguração das “magias”. As palavras japonesas “Hadouken”, “Shoryuken” e “Senpukyaku” entraram para a gíria da molecada no mesmo instante, mesmo que não se tivesse a menor ideia do que significavam. Claro que não se esperava de meninos de 10, 11 ou 12 anos a pronúncia correta. Então virou um festival de “Adúgui”, “Trec-Trec-Truget” e “Buga Vai”.
O jogo mereceria um estudo sociológico, pois conseguiu integrar os jogadores de todas as classes sociais. Era difícil passar por locadoras ou fliperamas que não estivessem apinhados de meninos no entorno de um televisor. O abismo social entre os ricos e pobres era quebrado pelo valor de uma ficha. Alguns até ensinavam como aplicar golpes em troca de uma delas. Os menos abastados de talento tinham que usar protetores auriculares. Era uma gritaria de dicas de como fazer o Blanka “dar uma bolinha” que os mais sensíveis poderiam ficar surdos. Se o computador estivesse levando vantagem sempre tinha um que sugeria: “deixa que passo a fase, mano”.

Street Fighter II também foi um momento estranho para o desenvolvimento motor dos jovens. Por alguma razão, movimentos bizarros começaram a fazer parte das brincadeiras. Alguns tentavam chutes rodados no estilo Guile, com o pé fazendo uma rotação de 360º iniciando o golpe por trás. Outros tentavam o gancho giratório do Ken com pulinhos que não saiam 10 centímetros do chão. Até hoje muitos devem acreditar que, com concentração, expelirão bolas de energias pelas mãos.

O sucesso foi tão grande que o jogo ganhou mais de 20 versões. Sem contar a série de clones que apareceu no mercado. Pode-se dizer ainda que Street Fighter II foi o jogo mais importante no estilo de lutas. O carinho que os jogadores têm é tão grande que levou a Capcom a pedir para um estúdio canadense que fizesse uma nova versão exatamente igual à de 1991. A única mudança feita foi na qualidade dos gráficos, que foram redesenhados para altas resoluções. Foi novamente um sucesso de vendas nas lojas onlines do Playstation 3 e Xbox 360. Só que agora os combates são online e fica bem mais difícil que todos tenham consoles de última geração. E não dá para ouvir o colega gritando “Papai quer hamburguer!”, outra corruptela dos dizeres dos personagens.

Street Fighter IV, lançado no mês passado, é um excelente jogo e relembra o clássico. Mas muito mais coisas mudaram: o estilo cansou, lançamentos hoje são para a elite (um lançamento custa mais de R$ 200) e as casas de fliperamas fecharam. Hora de guardar a ficha.

Publicado no caderno de tecnologia da Gazeta do Povo

Leonardo Soler

Retrogamer nas horas vagas. Mantém o Game Genius desde 2010 onde a internet ainda não tinha nem luz eletrica. Fã dos Power Rangers (até o PR no espaço). E é complicado o que é melhor, Final Fantasy VI ou Chrono Trigger. Google